Manhã fresca e luminosa. No contentor, além do saco de lixo poisam incrédulas as chaves de casa e os meus olhos. O coração vermelho ri-se para mim, em tom de desafio.
O dono do café, o amigo que passa, vou buscar uma vassoura, vou empurrar o contentor pra o chão, depois é só varrer, depois é só saltar para dentro e ir buscá-las. Vejo o polícia do outro lado da rua e opto pela segurança, aceno e peço ajuda com um sorriso que se quer rir.
Podia ter sido pior, diz o polícia sorrindo, enquanto com o bastão que se lhe ajusta ao corpo e à correnteza dos dias, pesca no fundo do mar o meu regresso a casa. Abro a porta, deixo a água correr.
Recomeço.
Primeiro. Todos os dias, várias vezes. A pouco e pouco espaçámo-nos, criámos espaço e ar entre nós, luta livre, silêncios destemidos e silêncios assustados. Afastámo-nos. Duvidámos um do outro. Amuámos dias, às vezes semanas. Voltámos a encontrar-nos apaixonadamente como se os espaços em branco fossem tão naturais como os espaços repletos de palavras. Voltámos a afastar-nos. E a sentir saudades. Sabemo-nos presentes. Não temos regras. Temos um mundo.
Podia ser o começo de uma história qualquer, uma pergunta, um apontar para a imaginação de cada um. O que não se vê é mais sedutor que o que está escancarado. A escrita faz-se a dois corações e mentes. De quem escreve e de quem lê. O leitor faz parte do mistério - logo, da revelação.
deve ser assim que um blog começa a acabar. com longos silêncios, pausas que se agigantam, espaços de entrega cada vez mais curtos. verdadeiros mesmo quando ficcionados pois imaginar não é uma falsificação, é uma verdade construída com tudo o que se é, se recebe e se dá. e agora algo completamente diferente
1) Que Saramago está senil, concordo, Luís. Não é grave, pode acontecer a qualquer um. A desonestidade intelectual que ele atribui aos outros que não pensam como ele é que me parece abusiva, e digno de reparo é a natureza deste tipo de golpe publicitário, eivado das características que S. atribui a Deus. A inveja e o rancor. É assim que vejo este nobelizado escritor. Se é bom ou mau ou alguma coisa algures por aí não sei. A mim nunca me tocou particularmente e agora muito menos, em coerência comigo própria. Não proclamo isenção, já agora. Gostei de nos meus 15 anos ter lido o Memorial e há 2 aquele livro sobre o fim da morte, está ali na estante, As intermitências ou algo assim. É um autor que nunca me fez vibrar. E isso é algo de puramente pessoal, é como a química nas relações. Quero lá saber que tenha ganho o Nobel - a maior parte dos Nobeis eu certamente não li.
2) Maitê Proença - uma espécie de desilusão. Enfim, publicidade gratuita à senhora. O que reparei quando passei os olhos na diagonal nos comentários dos leitores de jornais foi a falta de civismo de muitos deles. Sim, ela esteve muito mal. Mas caramba. Tem que se pôr o pai e a mãe ao barulho? Senti ali também alguma (muita) invejinha. Afinal é uma mulher linda e esplendora nos seus 50 anos. Se estava a pedi-las? Estava. Ficava-lhe bem ter sentido de oportunidade e civismo. Mas os comentários... bom alguns são de um calibre tão boçal que definem - sem dúvida - quem os profere. Mas que interessa, são comentários anónimos, não comprometem ninguém e cumprem eventualidade uma função psico-social.
3) Gostei da forma inteligente e cordial como Cavaco Silva declinou o convite dos Gato Fedorento. Desapontar-me-ia se tivesse aceite. Como me desapontou a explicação atabalhoada sobre as escutas a Belém. Não percebi nada e neste momento tenho mais que fazer e que pensar. Sei lá, se vou comprar botas novas, se no fim de semana faz chuva ou sol, coisas assim.
4) Há pessoas que ou se amam ou se odeiam. Odiar é palavra forte, indiferença define melhor o que (não) se sente por certas pessoas.
5) O vermelho das unhas secou, tomar comprimido, dormir até de manhã, acordar repousada. Um sonho: dormir bem.
Reorganizar o espaço mental e as prioridades - a pequeno, médio e longo prazo. Estamos tão ocupados e centrados nos nossos umbigos que nos passam ao lado os pedidos invisíveis de ajuda. E contra mim falo... Acho que a vida que escolhemos nos retira tempo livre. E será que temos medo do tempo livre? Será que temos de ocupartodo o tempo com actividades sob pena de nos sentirmos terrivelmente sós quando o carroussel do dia/semana/mês/fim de semana/férias, whatever, chega ao fim da linha?
Faz-me confusão a solidão acompanhada em que muitas pessoas vivem. Sei o que é isso, já a vivi e não quero lá voltar.
O outro lado, o da sobrevivência física, num dia agendado no calendário como o Dia mundial contra a fome... Quanto mais sabemos da vida e dos olhares dos outros, mais difícil é sermos completamente felizes.
Um dia destes, na Fnac, onde mergulho sempre com inefável prazer...(felizmente não tenho comprado nada, excepto o bilhete para o concerto do Rodrigo Leão, que me ofereci, num impulso assumido e feliz) Dizia eu que...? Num livro aberto ao acaso, surgiu esta frase 'a vida é difícil' - não sei se era livro de auto-ajuda ou não, eu corro transversalmente quase todas as secções de livros, sem grandes preconceitos de intelectualidade. E também não sei se a frase é triste ou não. A sua leitura dependerá eventualmente do modo como nos sentimos quando ela nos cerca. E eu até sou positiva, bem vistas a coisas.
E quem é que eu encontro hoje, numa fila de espera do hospital?... Esse magnífico exemplar do sexo oposto ao meu - O Rodrigo G. Carvalho. Simples, simpático, discreto e humano, sem manias. E inteligente. Tal como eu gosto :) De calças de ganga e camisa, nada ostensivo, apenas a sua presença, educação, porte e sobriedade se impunham. Um anti-vedeta. Boa!
Análises: Ai mas tinha de vir em jejum de 12 a 14 horas! Ai mas não me disseram que era tanto tempo. Pois, mas para estas é preciso. Ok, domingo a partir das 17h não como mais nada até às 7 e mal da manhã seguinte, ou seja, até me recolherem amostras para as ditas - a ver se não me esqueço de reabastecer regularmente o reservatório de energias durante o dia e até às 17 para ver se me aguento. Será que se pode beber água? Boa pergunta.
É melhor ir almoçar, que hoje já é sexta e mulher prevenida.... não acorda com fome a meio da noite :) - tem que planear as coisas com tempo!
Eu não impus quotas mas aqui quase nem seria preciso, dado o tema em causa:) De qualquer forma gosto de saber o que eles pensam e acho o tema da guerra dos sexos assaz interessante se levado como brincadeira e com alguma picardia pelo meio :) Porque também podemos falar a sério destas coisas e aí eu sou uma acérrima defensora dos direitos femininos e interessam-me as questões de género. Tenho uma pilha enorme de dossiers à minha frente, o pc bloqueia a cada meia hora e eu tenho tanto mas tanto por fazer que só me apetece voltar costas a tudo. Não desistas, oiço do outro lado da linha. Claro que não, foi um desabafo (muito sentido). E vou perseverar e tentar fazer hoje o melhor, sentindo que há alturas na vida das pessoas que são autênticos testes à sua capacidade de luta, de resiliência e de encaixe para suportar os pequenos grandes dramas misturados com alguma injustiça. E com tanto para fazer ainda arranjas tempo para vir aqui escrever? Quantas vezes já o disse, escrever é para mim respirar e o Ioga da alma. Como sabes o oxigénio é o must have da sobrevivência :)
Se ontem acordei com o rosto inchado e com dores e fui a correr ao dentista com cara de poucos amigos (afinal tinha ido lá na sexta para terminar o processo de desvitalização de um dente), hoje acordei com um inchaço, sei lá, 8 vezes pior. Quando acordei a meio da noite e sem dores, pensei: ah, afinal os medicamentos começaram a fazer efeito - afinal, nada menos que 4 tipos diferentes de comprimidos, incluindo 2 Clonix de cada vez em sos. Durou pouco o pensamento quando me defrontei com uma pessoa estranha no espelho. Não, aquela não era eu. O meu rosto parecia ter sido alvo de um combate de boxe ou de uma cirurgia plástica: inchado, deformado, parecia tudo fora do sítio, enfim era um ser alienígena que me olhava do lado de lá. E pensei, eu que sou de tão femininas vaidades, o quanto certos sinais exteriores de bem estar e feminilidade nos fazem falta quando se ausentam, mesmo que momentaneamente. E tem também a ver com a questão da identidade. Pessoal e feminina. Não saí de casa. Liguei ao médico, perguntei se era normal, disse-me que sim. Agora é esperar. E eu, que tinha a agenda da semana cheia de planos e projectos, tive que alterar tudo. Pausa forçada. E tanto comprimido faz-me sentir um bocado zombie. Como não tenho agora dores (tomei há pouco 2 Clonix) e tenho evitado o espelho, às vezes penso que está tudo normal. Mas basta olhar para ele para perspectivar as coisas: neste momento a minha identidade está meio perdida - o suficiente para me inibir de sair à rua.
Curiosamente li hoje uma reportagem do Expresso sobre o Plano de Protecção de Testemunhas onde se citava o caso de uma mulher que, vítima de várias ameaças de morte por ter presenciado um crime violento, decidiu trocar de rosto no cirurgião plástico. Por muito bonita que pudesse ter ficado (e o objectivo não era esse, era mesmo mudar de identidade) imagino, aliás, não imagino, o antes e o depois daquela mulher. Ganhou a liberdade à custa de uma parte de si. Entre o medo e a coragem optou pela vida, esqueceu as identidades físícas, imaginou que daqui a muitos anos somos todos pó conseguindo assim abstrair-se da questão da aparência (e note-se que ficou mais atraente depois da cirurgia, Biscaia Fraga dixit). Valente, é assim que a imagino.
Os Xutos & Pontapés venceram o prémio de melhor grupo português atribuído pela MTV Portugale são candidatos ao galardão europeu "Best European Act", cujo vencedor é conhecido a 05 de Novembro em Berlim.
Gosto dos Xutos há 20 anos ou mais. Tenho uma fotografia com o Zé Pedro e o Kalu, quando, em adolescente, eu e um grupo de amigas fãs, nos dirigimos aos bastidores no fim do concerto para pedir o célebre autógrafo. O Zé Pedro era - e acho que ainda hoje é - simpático, acessível e simples. O Kalu deu-me uma das baquetas da bateria, meio lascada no concerto, que está guardada algures em casa dos meus pais, com os restantes despojos da adolescência, leia-se cartazes, bilhetes e toda a tralha a que, se um dia achei que iria ter valor sentimental, hoje encaro-a como sendo apenas isso mesmo: tralha. Um dia queimo todas as minhas recordações. Para que servem afinal? Se perdemos pessoas, em termos afectivos e físicos, porque é que insistimos em guardar coisas? Coisas são prisões, são passado. Um dia hei-de chegar ao despojamento total. Insisto: não somos o que temos, somos o que damos. E sou Caranguejo e um Caranguejo, apegado às raízes como é, para dizer isto tem que ter levado alguns xutos da vida que é para aprender. Ou isso ou ter um ascendente algures entre Touro e Gémeos :)
e assim começa, com um dia a menos, mais uma semana de trabalho depois de um fim de semana em banho-maria, entre ida ao hospital para consulta e exames subsequentes obrigatórios, depois ficar em casa a descansar, deve estar tudo bem mas por precaução é melhor, mais uma ida a-ver-o-mar e os Expressos atrasados na mala onde cabe este mundo e mais que houvesse, não nos entendo a nós, mulheres, se a mala é pequena, ai que falta o verniz, lenços de papel, a agenda, o livro, a garrafa de água, o caderno de notas, e todos os essenciais que nunca chegam a fazer falta quando os levamos, se é grande, andamos ali minutos sem fim a apalpar os cantos à casa e onde é que estão as chaves, o telemóvel, a caneta, etc etc etc, ser mulher dá muuiiitooo trabalho às vezes, e eu vou cultivar o meu lado zen, mas é, que o resto da semana está com o tempo contado, boa terça-feira, quarta, quinta e - 'tá quase! sexta, ufa
Gostei de ler a entrevista que o cartoonistaAntónio deu ao Expresso de há duas ou três semanas atrás. Ando habitualmente com eles (os jornais) trocados, ou melhor intercambiados entre as semanas. Há alturas em que é sexta e eu ainda não li tudo o que gostaria de ler entre tanto caderno. E entretanto sai a última edição. Mas voltando ao António: as respostas são inteligentes e de alguém com o sentido das prioridades definido, enfim, uma delícia de ler. Culto, aberto, inteligente e sem tiques pseudo-intelectuais, parece-me, enfim, um charme de pessoa e de homem.
Não percebo nada disto das escutas e a comunicação do Presidente da República deixou-me na mesma. Sr Presidente, explique sff o que quis dizer, que eu não percebi. Obrigada.
A sondagem diz que Isaltino vai de novo vencer em Oeiras? Ou terei lido mal? Estou a um passo de não acreditar em nada.
Natureza: as catástrofes que assolaram parte do mundo nesta última semana. É de pensar o que andamos aqui a fazer e se vale a pena tanta preocupação com coisas pequenas. Quando nos confrontanos com limites, como doenças ou catástrofes, podem crer que tudo o resto se esbate no horizonte dos dias.
fim de semana, a vida é doce, amarga, doce, vou apanhar sol, vento, chuva ou apenas ouvir o mar. a vida é breve, uma serie de momentos roubados à eternidade.
O piano ao fim da tarde, o anjo perdido, o anjo ancorado, reler José Cardoso Pires, entrar a fundo em Jl Borges, atirar-me à História do Rei Transparente de Rosa Montero, amor às primeiras linhas e agora 2666 de Roberto Bolaño peguei nele e quase vertigem, quase paixão, o fascínio de quem é tão céptica exactamente por acreditar excessivamente? na essência das coisas, deixei-o onde estava, rendida quase, hoje não, é bom apreciar e amadurecer o gosto, e as pessoas que amo e amei, os meus amigos, a minha família e o mundo, eternidade e finitude de mão dada, Rodrigo Leão sempre, o Expresso de novo a comprar, o bilhete comprado, o consumismo e a reflexão, a contenção, há espaços tão bonitos onde não se paga para entrar e os centros comerciais cheios de gente, oh meu Deus e eu hoje também, tinha que ser hoje, os meus dias escapam-se como areia entre os dedos do tempo, a luz dos olhos dos meus sobrinhos, o terceiro maço de cigarros que compro na vida, o stress, o limite, a tontura, parar. a cabeça cheia de mais coisas que deve suportar e depois o riso inesperado, a conversa fácil, tocar os outros, deixarmo-nos tocar, soltar as asas, a vita breve, um novo mundo, Pergolesi que morreu aos 26 anos e deixou uma obra eterna.
Eu hoje queria ter asas sobre o meu mundo ou ser eu própria um mundo capaz de proteger sob as minhas asas aqueles que mais amo. Poupá-los à dor, a qualquer dor. Lembrei-me a propósito das asas, do disco imortal de Carlos Paredes, lembrei-me da música dos GNR. E se o primeiro me faz especialmente hoje ficar deprimida, a segunda expande-me os horizontes...