Isto foi assim: eu tinha tido um dia de trabalho desde o raiar até ao pôr do sol ou quase e estava estafada, acho que se me encostasse um bocado fazia uma mini siesta e às vezes faço, 10 minutos eyes wide closed e fico como nova, aliás mais nova do que sou mas por dentro a agitação do dia fervilhava, os telefones, os mails, falar com as pessoas, e eu ainda estava quase com a adrenalina toda e propus vamos ver A Origem? Ok, vamos. O pior veio depois, quando me sentei na cadeira do cinema e os pensamentos começaram a acalmar devagarinho e eu a ceder ao cansaço. Tentei estar com atenção ao início do filme e apanhei os primeiros 10 minutos acordada. Depois passei pelas brasas, segundos concerteza, e quando acordei vi na tela coisas estranhas e sonhos dentro de sonhos, pessoas presas dentro de sonhos e dentro do Tempo e vi-me a mim também presa dentro do sono a tentar manter-me acordada e ao mesmo tempo a pensar ainda no dia. Ou seja, não desliguei completamente a ficha do dia e não fiz a transição para o cinema com um jantar descontraído. Não, foi tudo a correr, culpa mía. Resultado: perdi-me dentro do filme, às tantas eu era uma personagem mais mas... do pouco que vi e como sou uma rapariga muito esperta, apanhei a meada principal sem ter apanhado o fio condutor. Quero vê-lo de novo, atraiu-me o conceito, o realizador, os actores (A idade fez muito bem ao Leonardo DiCaprio), a ideia de que os sonhos podem ser manipuláveis. É fascinante. Mas quero vê-lo acordada, depois de uma boa noite bem dormida, sem pressa, sem sono e com um belissimo café como preliminar :)
Não sendo o meu género preferido de filme (e eu tenho lá género preferido no que toca a cinema?) moveu-me a curiosidade e o apelo mediático de toda a publicidade. Concedo sem condescência que está ali um filme muito bem feito e as três dimensões tornam-no muito rente a nós no escuro da sala. Tecnologicamente avançado não perdeu o toque humano e acho essa é uma das características mais extraordinárias do filme: Quando Neytiri diz a JakeSully I feel you... ela diz-lhe que é real o que existe entre eles, e essa é a forma mais bonita de dizer que o ama. E o amor é ele próprio uma divindade a que todos estão - ou podem estar ligados, se se conectarem com o mais profundo de si mesmos. As árvores, a floresta, os seres e aqueles animais voadores (what's their name?) que se tinham de conquistar para pertencerem aos nativos - e ambos se escolhiam mutuamente. O respeito pela Vida, em qualquer das suas formas que incluia a vida de um inimigo. Podia vê-lo de novo. Avatar.
Quis um final perfeito. Agora aprendi, por meios duros, que alguns poemas não fazem rima, e algumas histórias não têm um começo claro, meio, e fim. A vida está sobre o não saber, ter que mudar, tomando o momento e tirando o maior partido possível, sem saber o que acontecerá em seguida. Ambigüidade deliciosa.
http://pt.wikiquote.org/wiki/Gilda_Radner
Gilda Radner morreu há 20 anos, com 42 e eu conheci-a este fim de semana, à conta de um filme que inicialmente pensei que fosse o clássico de Charles Vidor, de 1946, com a fabulosa Rita Wayworth. Curiosamente Gilda Radner foi baptizada em homenagem à protagonista daquele filme, já que Gilda actriz e Gilda personagem de Vidor nasceram no mesmo ano e a mãe de Radner deve ter achado esse nome forte e bonito. Eu acho.
fim de semana, a vida é doce, amarga, doce, vou apanhar sol, vento, chuva ou apenas ouvir o mar. a vida é breve, uma serie de momentos roubados à eternidade.
Era tanta a fome de cinema. Hoje, com saudades de mim e de mim apenas, deixei para trás o bulício dos últimos dias e fui à sessão da hora do almoço, horário de luxo pois há pouca gente, não há filas e sinto-me uma privilegiada por gostar de ir ao cinema a estas horas que não são carne nem são peixe. São qualquer coisa de intermédio.
Escolhi O ABC da sedução e surpreendeu-me positivamente, pois não ia com grande expectativa. E revelou um senhor actor que não conhecia, mas que, meninas, digo-vos, é tiro e queda para quem gosta de morenos simpáticos e que, olaré, sabem representar. Saio da sessão deliciada com um filme alegre e divertido e penso: Agora dou uma voltinha a ver os saldos e depois tenho à hora do lanche o Sinédoque, Nova Iorque. Hum, vou hoje, deixo para a semana?
Fui. E depois do fim perguntei-me se não deveria ter deixado este último para outro dia, tal é a diferença que separa ambos os filmes e a marca que cada um deixa em nós - O ABC da sedução é um filme leve mas que toca nos pontos G das relações entre homens e mulheres, é bem interpretado e divertido.
Já o filme protagonizado por Philip Seymour Hoffman é estranho, hermético e ao mesmo tempo compreensível, fala de dias banais, de paixões, da fragilidade e da necessidade de redenção. Neste sentido é mais pesado, às tantas é um filme dentro de outro filme dentro da cabeça do protagonista que se divide (multiplica?) noutro "Eu". Uma espécie de meta filme? que me leva pensar na palavra loucura, na esquizofrenia e também na rejeição e desejos reprimidos. E meus caros, a interpretação de Philip Seymour é grandiosa, quase dói vê-lo, é um trapo, uma ilusão dentro de outra ilusão. É tal a entrega a um papel tão duro e a interpretação é tão forte e verosímil que nos perguntamos de onde tira um actor a força para representar assim.
Revisto há dias, anos largos depois de o ver e rever, continua a fazer-me sentir a magia do cinema - a vida em nuances onde o preto e branco simplesmente não existe.
Nota: É um filme de 1967 (grande ano) e Katharine ganhou com ele o Óscar de Melhor Actriz Principal. Notável como a (aparente) simplicidade da trama se encadeia nos preconceitos sociais que atingem insidiosamente quem os rejeita por princípio. Acho deliciosa a ausência de preconceitos de Joey que a leva a afirmar naturalmente o desejo para um futuro filho em comum com o black and beautiful Sidney Poitier, o cargo de Presidente dos USA. Obama chega 40 anos depois.