La marée haute
Negligência condenada mais uma vez
Hoje, o pai da
Rute (que o céu a envolva suavemente...) esteve no programa
Fátima, da Sic, que não tive oportunidade de ver mas cujo teor imagino relacionado com as circunstâncias que envolveram a sua morte na mesa de operações, aos 21 anos.
Foi oportuno o convite dada a existência de mais uma
condenação (26.05.09) de José Mendia por más práticas clínicas.
Lipoaspirações e liftings, procedimentos cada vez mais usuais, tanto que quase se banalizam, envolvem riscos grandes para a saúde e integridade física daqueles que a eles se submetem, se não forem efectuados por
profissionais competentes, humanos e conscienciosos.
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E que à terceira seja de vez!
De novo
José Mendia em TribunalO cirurgião plástico José Mendia está a ser julgado nas Varas Cíveis de Lisboa, por más práticas clínicas. O caso remonta a 2005 quando uma mulher se submeteu a um lifting facial. A queixosa que em menos de um ano foi submetida a três operações lideradas pelo arguido, alega danos morais e pede uma indemnização de 25 mil euros. De acordo com os relatórios médicos a que o CM teve acesso, a queixosa tem uma necrose cervical, ou seja, tecidos mortos na zona do queixo e do pescoço.
“Estou revoltada, o médico é um carniceiro”, disse a queixosa ao CM (...). Sofia Rato, Correio da Manhã, 06/03/09
Já aqui manifestei o que penso deste alegado cirurgião plástico.
Em 2004 foi condenado pela má prática clínica de que resultou a morte de uma miúda de 20 anos, a Rute, amiga da minha irmã. Assisti a uma das sessões do julgamento e chamou-me a atenção a forma ligeira, direi mesmo leviana e cheia de bonomia como o Dr. José Mendia se comportou. Em nenhum dos seus gestos ou expressões mostrou contenção, que revelaria respeito pela dor dos familiares presentes. Vinha cá fora ao átrio do tribunal, ria e falava animadamente com a
assistente.
Classe? O que é isso? É pose para a fotografia, não é?
Espero que se faça Justiça em mais um infeliz caso, e que este homem seja expulso da profissão e de qualquer prática clínica de uma vez por todas. Ele que se continue a pavonear nas festas cor-de-rosa com o seu ar cândido e frontal que tão bem domina... impressionando quem se deixa impressionar ou quem não sabe da missa a metade. Ou quem não quer saber.
Quando folheio uma Caras e o encontro, tão polido e de olhar tão simpático para a câmara, lembro-me da frase:
A maior parte dos criminosos olha-nos nos olhos....
Etiquetas: Negligência médica
Negligência médica? negligência humana?
Eu vi a Rute uma vez ou duas. Era uma miúda feliz e alegre, com muita pedalada para viver. E era ela que dizia uma frase estranha, lida à distância e passados 7 anos da sua ida para algum lado. "Só se vive uma vez e se a vida for bem vivida uma vez basta".
Irónico, não?
Pois bem, um dia decidiu que queria sentir-se melhor com o seu corpo e, depois das consultas habituais e marcada a lipoaspiração, dirige-se nesse dia à clínica, sozinha, estaciona o carro e entra.
Assisti a uma das sessões do julgamento em primeira instância. Entre os amigos da Rute circulava o que tinham ouvido nos corredores do hospital, em surdina: que tinha havido um erro na administração da anestesia e que depois de constatado o erro, não se procedeu em consequência com a urgência e diligência que o caso impunha.
O médico, José Mendia, vinha cá fora de vez em quando, entenda-se, aos corredores do Palácio da Justiça, enquanto lá dentro as testemunhas eram ouvidas.
E se seria justo pensar que ele estaria contido e pensativo, desenganemo-nos: cá fora falava e ria como se estivesse a ser julgado pelo furto de um pacote de arroz. Independentemente da culpa que pudesse ou não ter, impunha-se respeito pela memória da miúda e pela família. Parecia que estava num café e foi isso que mais me chocou: essa falta de sensibilidade humana; com ele estava uma assistente que falava com ele e ria, atendia o telemóvel e ria, ambos muito leves e bem dispostos,
como se fossem superiores a tudo aquilo, imunes e alheios, centrados na sua vidinha fútil de revistas de jet set. Que se continue a fazer justiça, agora no Supremo Tribunal, para onde, ao que consta, o médico vai recorrer.
Rapariga de 21 anos morre após anestesiaMédico do jet set (José Mendia) condenado por morteEtiquetas: Negligência médica
Rute
Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem
Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas
Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas
Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são como sítios desviados
Do lugar
Daniel Faria
Era,
É, um poeta intenso e profundo, que se cumpriu em 28 anos de eternidade. Comove-me sempre que o leio, como se nele houvesse a premonição do absoluto e indizível futuro. Comove-me a forma suave densa e firme como toca nas palavras e as alimenta e lhes dá ar e água.
Disse a Rute a uma amiga pouco antes de morrer, premonitória e segura da alegria com que sugava a vida e olhava o futuro, não imaginando que a morte já rondava os seus 20 anos.
"Só se vive uma vez e se a vida for bem vivida uma vez basta."Há pessoas que são mesmo
lugares mal situados sítios fora dos mapas.Dedicado à Rute que olha o mundo do cimo das estrelas, dançando encantada. Os anjos dançam nas estrelas, sabiam?
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