As razões do amor, título posto à pressa e sem pensar muito
Nunca sabemos se atingimos um limite e escrevemos talvez para criar um contorno que nos dê a ilusão de estarmos no mundo ou nos dê o mundo nessa ilusão do mundo
Por isso escrevemos com um felino vagar como se fôssemos sentir o ardor plácido da terra e construir uma translúcida torre à beira da qual o mar lavasse os obscuros pensamentos
Sabemos que o além também está nos limites e que se não há limites todo o além se perde Assim cada palavra caminha para uma morada em que o corpo possa encontrar a flexível integridade na lucidez de um contorno.
Não sei como cheguei e quando parti. Se parti. Se alguma vez cheguei. O tempo foi escasso (a eternidade passa a correr) e abundante por tudo o que vivemos: os momentos sem tempo e para sempre, chegar a casa e ver que a minha casa eras tu. Juntos fomos a casa e construímo-la com a geografia dos nossos corpos, dos nossos olhos ávidos de repouso e paixão.
Parti. Partimos os dois na alvorada daquela noite e mudámos para sempre o destino que desde então deixou de existir.
É preciso morrer para nascer de novo, dizem.
O sono perseguia-a, adivinhando que ela lhe poderia dar atenção redobrada. As férias chegavam assim, astutas, deixando-a lânguida e sem pressa de pertencer à correria do tempo, mesmo que de descanso fosse. Decidiu que nesse dia só pertenceria a si mesma.
E a loucura nem sempre é uma doença. Por vezes, é um acto de coragem. O teu pai, caro Mwanito, teve essa coragem que nos falta a nós. Quando tudo estava perdido, ele começou tudo de novo. Mesmo que esse tudo aos outros parecesse nada. Eis a lição que aprendi em Jesusalém: a vida não foi feita para ser pouca e breve. E o mundo não foi feito para ter medida.
Ela só tinha um remédio para melhorar: era contar a sua história. Eu disse que a escutava, demorasse o tempo que fosse necessário. Ela pediu-me que a soltasse, ainda tremia, mas pouco. Então, contou-me a sua história.
Je suis spécialiste des sourires invisibles. Je ne suis pas aussi sérieuse que j'en ai l'air. Quando quelqu'un m'aura assassiné, quand on fera mon autopsie, quando on ouvrira mon corps, on y trouvera des sourires, una foule de sourires que personne n'avait devinés.
A alma tem muitos inquilinos que estão frequentemente em casa todos ao mesmo tempo. Uma criança de cinco anos que rasteja para um lugar quente com uma barra de chocolate na boca; um chefe de família carregando arquejante o seu fardo; uma menina com mangas tufadas que ri e se entusiasma; um velho fitando noite após noite o lume e as cinzas; um primo distante que está sempre a bater à porta no momento errado; uma mãe que enche a casa com a sua presença calada; um adolescente batendo a cabeça contra uma parede de cimento forrada a papel de veludo que as suas mãos acariciam; e outros e outros. Enquanto esta variegada reunião de família tem lugar, alguém chamado “eu” tem de exprimir o seu inalterável ponto de vista. A alma é, no melhor dos casos, uma frente unida.
Göran Palm
21 Poetas suecos Antologia coordenada por Ana Hatherly e Vasco Graça Moura Ed. Vega
Life is made of fear. Some people eat fear soup three times a day. Some people eat fear soup all the meals there are. I eat it sometimes. When they bring me fear soup to eat, I try not to eat it, I try to send it back. But sometimes I'm too afraid to and have to eat it anyway.
Abro o jogo! Só não conto os fatos de minha vida: sou secreta por natureza. Há verdades que nem a Deus eu contei. E nem a mim mesma. Sou um segredo fechado a sete chaves. Por favor me poupem.
Agora que o silêncio é um mar sem ondas, E que nele posso navegar sem rumo, Não respondas Às urgentes perguntas Que te fiz. Deixa-me ser feliz Assim, Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto. Só soubemos sofrer, enquanto O nosso amor Durou. Mas o tempo passou, Há calmaria... Não perturbes a paz que me foi dada. Ouvir de novo a tua voz seria Matar a sede com água salgada.
Tenho uma vontade intensa de escrever e nada me sai das entranhas. Mas porque há-de sair das entranhas, pergunto-me? Porque não apenas da superfície dos poros, da pele aberta ao sol e à claridade? Se hoje me quisesse dar à escrita e tivesse tempo e vontade sei que dos meus poros ou das minhas entranhas sairiam as palavras que contenho porque não as sei decifrar, hoje não me quero decifrar. Talvez quando a noite cair cerrada eu me entregue docemente aos seus mistérios, talvez ela me dê em troca ou gratuitamente a sua luz para desvendar os meus. Talvez.
Se você não se distrai, o amor não chega A sua música não toca O acaso vira espera e sufoca A alegria vira ansiedade E quebra o encanto doce De te surpreender de verdade Se você não se distrai, a estrela não cai O elevador não chega E as horas não passam O dia não nasce, a lua não cresce A paixão vira peste O abraço, armadilha
Hoje eu vou brincar de ser criança E nessa dança, quero encontrar você Distraído, querido Perdido em muitos sorrisos Sem nenhuma razão de ser Olhando o céu, chutando lata E assoviando Beatles na praça Hoje eu quero encontrar você
Se você não se distrai, Não descobre uma nova trilha Não dá um passeio Não rí de você mesmo A vida fica mais dura O tempo passa doendo E qualquer trovão mete medo Se você está sempre temendo A fúria da tempestade
quase exclusivamente pelo medo. Receamos até aquilo que é bom, aquilo que é saudável, aquilo que é alegre. E o que é o herói? Antes de mais, alguém que venceu os seus medos. É possível ser-se herói em qualquer campo; nunca deixamos de reconhecer um herói quando este aparece. A sua virtude singular é o facto de ele ser um só com a vida, um só consigo próprio.