As asas são para voar

Nils Jorgensen
insistimos tanto no amor no amor essa fragilidade. temos
a velha utopia da família feliz, como escreveu um autor. exaltadas pela paixão descem as estrelas à terra e quando se aferem os níveis de sangue, suor e lágrimas que elas exigem para poisar, calma, espera um pouco, vou primeiro fumar um cigarro e pensar na vida.
tudo pode ser transitório, pensa bem. amanhã se calhar não sentes isso e entretanto terás posto em causa o futuro que ainda tens hoje. pode não bastar mas é teu.
mas que futuro? pergunta-lhe outra voz. a indiferença de viver ao lado de quem não sente o coração a bater ao mesmo compasso? a paz podre dos arranjos domésticos porque ai os filhos ai a casa? e a perturbação triste de não conseguir suportar os silêncios d(es-partilhados). mas. mas há a casa, este conforto, os meus livros e os teus vê como ficam bem lado a lado são da mesma colecção, e não te esqueças, o fogão já o tinhas mas o frigorífico fui eu que o comprei, e as férias de verão na casa alugada a meias com os cunhados graças a Deus elas dão-se bem, e há os filhos, por eles tudo, mãe já não gostas do pai e a lágrima a espreitar não se sabe de onde veio.
outra voz viu a fogueira que as outras faziam e juntou-se-lhes, falando em tom profético: filha, eu já vi muito. o amor dificilmente bate uma segunda vez à porta de quem um dia o rejeitou. o amor verdadeiro, ah o amor verdadeiro... a voz suspirou e no centro daquele respirar sentiu-se a leve brisa da madrugada. tenho que fechar a janela do quarto, estou com frio. continua por favor, voz. só te queria dizer que sem te aperceberes vais passar a vida inteira à procura do que rejeitaste ou adiaste, é a mesma coisa. adiar é dizer adeus. o amor não espera, tem tantas pessoas a unir.
abriu os braços e saltou.
Etiquetas: de amor, galeria