O concerto de Lhasa de Sela
Se me pedirem numa palavra para descrever a ambiência do concerto de ontem na Aula Magna, eu digo
magia.
Duas horas de deslumbramento num concerto cuidado e intimista. Entrei na sala, pensei
venho com expectativas altas, é um erro (bem no fundo sentia que não era erro nenhum), saí da sala, confrontei-me, ainda envolta na beleza, na arte,
as minhas expectativas foram largamente superadas.
É difícil individualizar o que mais me seduziu (Pierre Balmain, costureiro francês, dizia que uma mulher está elegante quando não se sabe exactamente dizer
o que a faz elegante.)
O que me apaixonou e me fez vibrar foi a alma que se sentiu naquele concerto. Seduziu-me a simplicidade e imensa simpatia da intérprete, saber que ela escreve as letras e músicas, ou ela em parceria com alguém, a empatia entre Lhasa e os músicos, a forma como ela se rendeu desde a primeira
palabra, se entregou, numa entrega quase sensual (tudo o que na arte [na vida
normal também?] ) traz consigo, colado, entrega e paixão ao que se faz é sensual, no sentido de entrega à harmonia com ritmos interiores, organismo, corpo, pele, mente), a forma como ela sorria para dentro e se via cá fora, o corpo que balançava numa pose de prazer de estar ali e se sentir
livre.
Tinha 6 anos e fiz uma maldade. As minhas irmãs, para não contarem à minha mãe, obrigaram-me a fazer tudo o que elas quisessem durante duas semanas. Ao fim de uma semana não aguentei mais e contei eu mesma à minha mãe. Foi assim que fiquei livre.
Apaixonou-me a alma do concerto, a alegria e empatia dos músicos em estar ali, a ligação que estabeleceram com o público que lhes correspondeu apaixonadamente, vibrante e à altura, pedindo dois encores e mais pediria se Lhasa não tivesse terminado o concerto com uma canção suave e não apoteótica e não estivesse programado terminar ali.
Para completar um quadro incompleto, posso falar na parte inteligente e também sensível: o alinhamento das músicas, os textos escritos por Lhasa, íntimos para o mundo, as referências à família em palavras cheias,
comoveram-me os textos, sabem? não consegui nem quis aplaudir, as pausas, as mudanças de ritmos e registos, a forma como se sentiu que nela a alegria e a tristeza, a morte e a vida se entrelaçam e é assim que nos reconciliamos com a vida, começa e acaba pequenina,
como uma luz, e é infinita, até que morra a morte.
Foi sereno, reconfortante, alegre. Infinitamente alegre. Infinitamente tudo o que pode ser um concerto intimista de uma intérprete de encanto, intérprete das músicas, dos textos, da vida, de si própria.

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